Para os entusiastas da filatelia, é sempre fascinante descobrir onde nosso hobby se cruza com outras formas de arte. O romance italiano “Il postino di Piracherfa” (O Carteiro de Piracherfa, 144 páginas), do escritor sardo Salvatore Niffoi (Orani – 1950), tem em sua trama detalhes interessantes que tocam diretamente o universo dos selos e cartões postais.
A obra de Niffoi lida diretamente com o ofício do correio, acompanhando a vida dura e atormentada do carteiro Melampu na fictícia aldeia de Piracherfa, na Sardenha. O protagonista é um homem corpulento que “arrasta seus dias com esforço“, com a saúde comprometida pelo álcool e a memória “afligida por um trágico passado familiar“. Sua alma está envenenada pelas “obscenas investidas de Rodìa Sagrittu, sua grotesca chefe de escritório.” O texto descreve sua existência como uma rotina “alucinada, pesada quanto uma montanha de granito“, aliviada apenas pelo carinho por Galdina, a “prostituta” de Noroddile, e pela paixão secreta pela escrita.
Nesse cenário sombrio, as cartas e a correspondência tornam-se o ponto central de sua fuga e conforto. O único verdadeiro alívio de Melampu é responder às cartas que chegam ao endereço de Mitrio Zigattu, um amigo falecido. Ele suporta o passar dos dias “vivendo a vida de outro, dissolvendo-se em outra forma“. Este jogo perigoso com a identidade e o correio se intensifica quando, durante sua rotina de entregas, ele encontra o corpo desfigurado de dona Balbina, a farmacêutica da aldeia – uma morte inquietante que o força a encarar um abismo bem mais profundo.
Este cenário de correio e mistério é sublinhado por um detalhe na capa do livro: um cartão postal de fantasia que está franqueado com um selo de 50 liras “Italia al lavoro” (Itália no trabalho) – aquele especificamente dedicado à Sardenha.

A inclusão de um objeto filatélico na capa não é acidental, agindo como uma homenagem sutil, mas poderosa, às origens do próprio autor, Salvatore Niffoi, um dos nomes mais importantes da literatura sarda contemporânea. O romance oferece, assim, mais do que uma história intrigante; ele nos presenteia com uma referência a um selo icônico da história postal italiana, celebrando o papel do carteiro e da correspondência na vida, na morte e na identidade.
















