“Tra il silenzio e il tuono” (Entre o silêncio e o trovão, numa tradução livre) é um romance escrito pelo cantor, compositor e letrista italiano Roberto Vecchioni (1943), com um total de 184 páginas, publicado pela Einaudi editora, em fevereiro de 2024.
Trata-se de um romance epistolar (53 cartas), mas vai além disso. De fato, os capítulos tomam a forma de cartas individuais: algumas escritas por Vecchioni a um misterioso avô, outras redigidas pelo próprio ancião, mas não como respostas ao neto; muito pelo contrário, parecem reflexões sobre literatura, teatro, música, filosofia, costumes contemporâneos, e endereçadas a personagens famosos e outros imaginários.
Roberto fala de si com sinceridade ao avô. Confessa-se, despoja-se: primeiro lhe mostra o coração nu, depois, nua, apresenta-lhe a alma. Surge a dúvida de que esse avô nada mais seja que o próprio Vecchioni de hoje (com mais de 80 anos), recebendo memórias epistolares através de uma viagem de volta no tempo para redescobrir o menino, o jovem, o homem que ele foi.
E essa viagem, que consegue retroceder até 1950, quando Roberto tinha apenas sete anos, é para ele uma verdadeira regressão; parece que revive os eventos, onde até o estilo de escrita se adapta à idade. Eventos densos, emocionalmente envolventes, que falam sobre a infância, a adolescência, a maturidade do autor, do contexto familiar. Mas ao descrever as mudanças que ocorrem em sua existência e consciência, emergem em segundo plano as mudanças da sociedade italiana nos últimos 70 anos.
É maravilhoso reviver com ele os anos de sua ascensão como cantor e compositor. Anos difíceis, onde nada foi dado de graça. Anos de canções escritas para outros. Anos de apresentações nos cabarés dos históricos locais milaneses: Bullona, Refettorio, El Lanternin, Le Clochard. Anos de esperanças e amores desfeitos, de vinho e paixão, de idas e voltas. Anos de amizade com Guccini e Branduardi.
Vecchioni, neste livro íntimo, também nos fala do que o amor significa para ele, o amor apaixonado, o amor por uma mulher. Um amor que evolui com o tempo, cada vez menos egoísta e mais sensível, mas sempre ligado ao contato, ao desejo. Um amor que atinge o equilíbrio após fracassos, lutas, desespero. Um amor que com Daria se torna uma árvore com raízes profundas na terra e ramos que se estendem infinitamente, mas também uma casa, um lar para onde retornar após viagens de conhecimento e descoberta, no ofício de contador de histórias. Um fio vermelho, o relacionamento com Daria, capaz de despertar o lado de Vecchioni fora da indústria do entretenimento, marcado pelos afetos, pela família, pelos amigos, pelos ciclos das estações, pela natureza.

No final, talvez o avô represente o outro lado da personalidade de Roberto. O homem atraído pelo conhecimento, imerso no tempo e na sociedade, o homem que chega a ver a realidade como uma obra surreal, mas que ainda assim deseja deixar uma marca útil. O homem predisposto à crítica dos sistemas, mas aberto à magnificência da beleza. Ou talvez, simplesmente, um avô solitário, à mercê de um extravio cósmico. Excitado e inquieto diante da luz, dos mistérios, dos mitos da criação, mas também diante de sua escuridão, dor, solidão e morte, ele sente a necessidade de se centrar neste pequeno ponto do universo. E assim, para fazer isso, ele precisa redescobrir aquele jovem.
Vecchioni conduz o leitor em uma jornada através de sua vida, mas, em geral, através da condição humana. Nunca banal, nunca previsível. Os episódios, as anedotas, as reflexões são sempre acompanhados, no momento certo, de uma genial ironia que tende a desdramatizar, a fazer com que conceitos que poderiam parecer abstratos e distantes sejam apresentados de forma atraente e cotidiana.

(Roberto Vecchioni)

A escrita é fluida, não se perde em construções redundantes, vai direto ao ponto, não deixando o leitor perder o foco no texto. Vecchioni usa, na maioria das vezes, uma linguagem verdadeira, próxima do falar cotidiano, mas extremamente precisa na estrutura da frase; algo que só quem tem grande domínio da língua pode fazer.

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